sexta-feira, 30 de setembro de 2011

FILME - 8MM

- Se você dança com o demônio, o demônio não muda. O demônio muda você.

Quatro anos antes desse filme ser realizado, o roteirista Andrew Kevin Walker já tinha surpreendido as platéias do mundo inteiro com o intenso Seven, dirigido por David Fincher. Lá, eram dois policiais comuns que se deparavam com um psicopata culpado de terríveis assassinatos. Aqui, a história não é muito diferente, temos um detetive, pai de família, que se vê mergulhado em um obscuro mundo de masoquismo e sangue para resolver o caso pelo qual foi contratado.
O detetive em questão é Tom Welles (Nicolas Cage). Também é um homem comum mas mais acostumado com crimes de adultério e especializado em clientes de alto poder aquisitivo e que preza muito pela discrição. Por esse motivo, é contratado pela viúva de um milionário que encontra, no cofre do falecido, um vídeo de uma mulher sendo morta. Tudo que ela quer saber é se aquele vídeo é real ou não, e principalmente se a menina do vídeo está viva ou morta. Nada que pareça muito complicado a uma primeira vista.
Descobrir a menina em questão não é tão complicado assim. Checando os arquivos da polícia, ele descobre o nome e onde ela morava, mas seu paradeiro é desconhecido. A verdadeira complicação é descobrir se ela está viva ou morta, e para isso ele terá que ir fundo na investigação descendo até o submundo dos chamados filmes snuff (como são chamados esse tipo de filmes). Welles acredita que esse tipo de filme não existe, que é uma mera lenda urbana, mas lenda ou não ele descobre que há um mundo podre por trás dessa indústria.
Ajudado por um balconista de uma loja de filmes pornográficos chamado Max California (Joaquim Phoenix), ele começa a mergulhar cada vez mais nesse submundo, chegando até o produtor de filmes eróticos Eddie Poole (James Gandolfini), um daqueles caras que podem te apresentar a qualquer pessoa, e é através dele que Welles chega até o estranhíssimo diretor Dino Velvet (Peter Stormare) que está sempre acompanhado de Machine, uma espécie de homem fetiche que usa vinil por todo o corpo e não que não gosta de remover sua máscara.
É de se esperar que Welles se envolva em algum tipo de perigo com esses caras, e ele realmente chega a esse ponto, mas o assunto não é tratado de maneira banal, como mera desculpa para cenas de ação e tiroteios. O roteiro nos leva até dilemas morais que alguns podem concordar ou não. A idéia é colocar um homem comum em meio a uma situação extraordinária. Até que ponto este homem pode chegar a matar uma pessoa ou não? Mesmo que a pessoa mereça. Esses homens não são vítimas de violência doméstica ou coisa parecida, eles simplesmente são pessoas ruins. Será que isso faz com que a morte seja justificada?
Assim como Seven, não é um filme de fácil digestão. Aqui os atos tem suas consequências e os personagens tem que viver com elas. Isso o faz um filme muito interessante.

LIVRO BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio

BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. Porto Alegre: L&PM, 2003.

A cultura popular em geral, desde filmes de faroeste a desenhos animados, sempre exaltou a ousadia do homem branco em solo americano, arriscando sua preciosa vida em nome do progresso, da civilização e do bem-estar do “povo americano.” Para tal, envolvia-se em perigosíssimas batalhas contra os índios; criaturas odiadas pelo branco, selvagens sanguinários, praticantes do brutal escalpo que, armados de arcos, flechas, lanças, pedras e rifles velhos, impediam a expansão americana.
Pois eis que em 1970, Dee Brown lança o livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio. Nascido em Louisiana, seu primeiro amigo fora um menino índio, que o acompanhava em todos os filmes que retratavam a luta do branco herói contra o índio maléfico. Ao término dos filmes, o garoto índio sempre aplaudia a vitória do branco sobre o índio. Dee Brown não entendia, até que questionou seu amigo sobre tal fato e este respondera “Não são índios de verdade.” Foi aí que Brown percebeu que de fato, os índios retratados em filmes, livros e desenhos não passavam de caricaturas estereotipadas dos verdadeiros indígenas; homens pacíficos que lutavam para manter o seu direito a vida, o direito de viver nas terras que sempre foram suas e de seus antepassados, a preservação da caça e a preservação da natureza, indispensável para a vida.
Formando-se na Universidade de Washington durante a grande Depressão, conseguiu um emprego de bibliotecário do Departamento de Agricultura. Foi nessa época que começou a mostrar suas habilidades como pesquisador. Para a criação de Enterrem meu coração na curva do rio, Brown utilizou-se de registros oficiais de conselhos e tratados, entrevistas concedidas por índios encontradas em obscuros jornais da época, entre outras fontes que dificilmente veriam a luz do dia se não fosse o interesse de um competente pesquisador.
O período que o livro analisa – e que é o período de onde os maiores mitos do velho oeste surgiram – é o que compreende os 30 anos entre 1860 a 1890. Enquanto a historiografia americana guardava em sua memória massacres como o de Little Big Horn, aonde morreu o General Custer, eternizado como um bravo comandante e mostrado neste livro como um sanguinário perseguidor de índios, se esquece de massacres dezenas de vezes mais brutais, tal qual o massacre de Sand Creek.
O número de leis criadas para benefício dos índios que foram sumariamente ignoradas com o tempo, o número de tratados quebrados e a quantidade de massacres é difícil de se enumerar. Vou usar apenas o exemplo citado no parágrafo anterior, sobre o massacre de Sand Creek.
Os índios Cheyennes estavam acampados em Sand Creek, por terem recebido a garantia de paz do major Anthony, comandante do Fort Lyon. Este os manteve próximos (o acampamento ficava a 65Km de distância do forte) até que recebesse reforços. Além destes, juntaram-se a ele os homens do coronel Chivington, ex-pastor metodista. Alguns homens de Anthony, como o tenente Joseph Cramer e o capitão Silas Soule, foram terminantemente contra o ataque. Conta-se que Chivington esmurrou Cramer e disse: “Vim para matar índios e acho que é certo e honroso usar qualquer meio sob o céu do Senhor para matar índios.”
O massacre é detalhadamente descrito, segundo relatos dos sobreviventes, de ambas as partes da batalha. Adiante, um longo trecho do livro que descreve os requintes de crueldade com que os soldados agiam, retirados do testemunho de Robert Bent, um dos homens que estava cavalgando contra sua vontade por ordem de Chivington:
“Vi uma squaw (mulher indígena) no banco, com a perna quebrada por um obus; um soldado foi até ela com o sabre desembainhado; ela levantou um braço para se proteger, quando ele golpeou, quebrando-lhe o braço; ela rolou e levantou o outro braço, que ele golpeou e quebrou; depois, deixou-a, sem matá-la. Parecia haver uma matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Havia cerca de trinta ou quarenta squaws reunidas numa caverna como abrigo. Enviaram uma menina de cerca de seis anos com uma bandeira branca num pau; mal dera uns passos, ela foi atingida e morta. Todas as squaws da caverna foram mortas mais tarde, além de quatro ou cinco homens fora dela. As squaws não ofereceram resistência. Todo mundo que vi morto estava escalpado. Vi uma squaw com seu filho ainda não nascido, segundo me pareceu, ao seu lado. O capitão Soule me disse depois que havia sido isso mesmo. Vi o corpo de Antílope Branco com os genitais cortados e ouvi um soldado dizer que iria fazer uma bolsa de fumo com eles. Vi uma squaw com os genitais cortados... Vi uma menina de uns cinco anos que se escondera na areia; dois soldados descobriram-na, tiraram seus revólveres e a mataram, arrastando-a depois pelo braço sobre a areia. Vi várias crianças de colo mortas com suas mães.”
Este é apenas um dos trechos do livro que descreve a crueldade com a qual o soldado branco agia. Neste episódio em particular, um dos principais líderes do acampamento, Chaleira Preta, saíra com uma bandeira dos Estados Unidos e fora em direção a um dos dois grupos de soldados. A ele foi prometido que, empunhando a bandeira norte-americana, nenhum soldado atiraria nele. Chaleira Preta e os demais índios ao seu redor foram alvejados pelos rifles dos homens de Chivington e Anthony. Devo citar, aproveitando a ponte, que o ato do escalpo que durante tantas décadas foi creditado ao "índio senvagem" na realidade foi introduzido na américa pelos espanhóis e só passou a ser utilizado pelos índios norte-americanos porque os casacos-azuis assim o fizeram primeiro, tal como está descrito no relato postado acima. Infelizmente, não era conveniente que os "bravos soldados" fossem retratados como realmente eram. Era mais simples enumerar relatos de barbáries indígenas para legitimar a matança dos "inimigos do progresso e do homem branco".
Gradativamente, dezenas de outros povos foram exterminados ou reduzidos a poucos representantes. Desta época sangrenta surgiram nomes que, mesmo estando do lado até então considerado vil, sobreviveram na mentalidade americana. Nomes como Nuvem Vermelha, Cochise e Touro-Sentado fazem parte desse grupo.
Este livro, mais do que um triste relato sobre todos os infortúnios que os índios norte-americanos tiveram que enfrentar, foi fundamental para toda uma revisão histórica e uma mudança de mentalidades. Pode-se dizer que esta obra mexeu com a consciência dos norte-americanos, e foi a partir dele que surgiram diversos filmes mostrando o lado dos vencidos.
Levando em conta que ele trata exclusivamente da história dos Estados Unidos, muitos talvez não se interessem pelo mesmo. Sua leitura pode ser um tanto cansativa para quem não possui interesse no tema. Mas mesmo assim me vejo no dever de recomendar este livro para qualquer historiador. Mais do que um simples estudo de três décadas de injustiças, ele é uma mostra da brutalidade humana, do que o homem é capaz de fazer para atingir seus objetivos. Seria de uma ingenuidade tamanha acreditar que estes foram episódios isolados e que tais mostras de barbárie não se repetem nas inúmeras guerras e guerrilhas que ainda hoje nos batem à porta mediante jornais e noticiários em geral. Mais do que conhecer acontecimentos do passado de um outro país, ler este livro é conhecer a mentalidade daqueles que sempre justificaram suas ações com seus discursos demagogos de caráter civilizatório.
Pode soar falso, mas dizer que se trata de um livro emocionante, que realmente faz você pensar sobre a mentalidade humana e lhe ensina a olhar com desconfiança a dita “história oficial”, não é exagero.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

LIVRO LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média

LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

Usura. Esta é a palavra que será repetida uma infinidade de vezes durante o decorrer desta obra sendo o tema central deste livro de Jacques Le Goff. Confesso que soa um tanto hipócrita que se fale sobre a facilidade de se procurar material de Le Goff, Foucault e outros por serem conhecidos e agora estar postando dois livros deste autor em sequência. No entanto, são livros baratos, relativamente fáceis de se encontrar e possuem um conteúdo muito rico para a compreensão da cultura medieval e sua sociedade como um todo, novamente salientando a impossibilidade de o fazer sem envolver a religião, mais precisamente o cristianismo – sob a forma da Igreja Católica Apostólica Romana.
Para iniciar a resenha, creio que seja necessário primeiro elucidar o significado da palavra usura, que caiu em desuso com o passar do tempo. Usura é o ato de se emprestar dinheiro e obter lucro em cima dos juros decorrentes do tempo. Em outras palavras, empréstimo, geralmente sob altos juros.
A principal problemática do livro gira em torno da condenação ferrenha do cristianismo à pratica da usura. Segundo os católicos, o usurário era a pior espécie de ser humano. Enquanto ladrões roubavam bens e objetos, o usurário roubava Deus. Ora, se o usurário empresta o dinheiro e recebe o lucro em cima do tempo, sendo Deus o único dono e senhor do tempo, logo o usurário está roubando a Deus. O problema é que essa condenação exagerada do usurário começou a se tornar inconveniente quando aos poucos o sistema capitalista começou a dar mostras de nascimento. Então, convenientemente, criou-se a idéia de que um usurário, caso devolvesse o lucro ilícito proveniente da usura antes da morte, poderia encontrar a salvação – esta provavelmente pelo purgatório. Como em um determinado trecho é explicitado: “O purgatório, decididamente, não é mais do que uma oportunidade que o cristianismo dá ao usurário no século XIII, mas só o purgatório lhe assegura o paraíso sem restrição.”
O livro ilustra através de pequenas parábolas da época o medo que o usurário tinha da morte e todos os infortúnios que a prática da usura o traria, em vida ou após a morte. Mostra também o quanto essa aversão contribuiu para agravar a imagem negativa que o ocidente medieval cristão possuía dos judeus.
Porém, como já dito anteriormente, os usurários foram peças fundamentais para a formação do capitalismo como o conhecemos atualmente. Os usurários do passado – pelo menos boa parte deles – se tornaram comerciantes, e assim esses sistema econômico teve seu surgimento.
Considero o trabalho anteriormente resenhado (O Deus da Idade Média) mais interessante, mas devo dizer que isso se deve ao fato de eu ser mais interessado nos aspectos religiosos do que político-econômicos das civilizações. Este livro torna-se de grande valia para qualquer um que queira entender como a religião teve que adaptar-se às mudanças da sociedade, mesmo aquelas que feriam suas doutrinas mais antigas.

LIVRO LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier

LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

Enquanto o mundo se afoga em profecias apocalípticas de fim dos dias, Igrejas das mais diversas surgem prometendo a salvação, esta sendo rejeitada gradativamente por um mundo que torna-se apático ao que no passado era a razão de todo um comportamento regrado. Se hoje podemos nos imaginar livres de religiões e dogmas, o ocidente medieval não podia. É impossível dissociar Deus, Igreja Católica e a Idade Média, dado o grau de importância que esta Igreja possuía e sua influência sobre toda uma civilização, com diversos resquícios que duram até hoje.
Este cenário, que podemos chamar de exótico caso queiramos nos utilizar de eufemismo, é ideal para inspirar uma boa obra. E esta resenha fala de uma. Mais precisamente O Deus da Idade Média, do medievalista francês Jacques Le Goff.
Sendo um dos maiores medievalistas do mundo, Le Goff dedicou a maior parte de suas obras a essa época tão cheia de nuances. Neste livro, o autor foca na presença de Deus neste período, desenvolvendo a obra através de conversas – como já explicita o sub-título – com o historiador e redator-chefe da revista Le Monde de La Bible, Jean-Luc Pouthier.
O livro aborda diversas questões. É discutida, por exemplo, a visão que a população medieval possuía de Deus, como o imaginavam e sua relação com o mesmo. Logo no primeiro capítulo, com poucas palavras, Le Goff explicita o início do Cristianismo e esboça sua expansão:

“A Antiguidade tardia é o período em que o Deus dos cristãos se torna o Deus único do Império Romano. Esse Deus é um Deus oriental que consegue se impor no Ocidente. Os primeiros grupos de cristãos se desenvolveram um pouco à maneira de uma seita, que faz conquistas e cujo número de membros cresce.”


Ainda no mesmo capítulo, é importante frisarmos a influência de práticas pagãs no culto cristão. Essas práticas continuaram sendo praticadas na surdina pelos camponeses. Ora, à partir do momento que 90% da população se concentrava nos campos, temos aí uma grande deturpação deste culto cristão que prega a idéia de que toda crença fora do cristianismo é de origem demoníaca.
No segundo capítulo, Le Goff aborda a presença de duas figuras que alcançaram grande status na época e que até hoje mantém-se com força: o Espírito Santo e a Virgem Maria. O capítulo tenta mostrar a flexibilidade do monoteísmo cristão medieval quanto à presença de outras figuras que não Deus. Ilustra a dificuldade não apenas do povo entender a presença deste Espírito Santo e da unidade da Santíssima Trindade quanto a dos clérigos da época ao tentarem criar uma concepção compreensível desta.
No terceiro capítulo, é discutida a presença de Deus na Idade Média, principalmente sua representação. Afinal de contas, os cristãos representam Deus através da arte, diferentemente de judeus e muçulmanos que cultuam um Deus não visualizado. Não apenas isso, os cristãos o representam sob um aspecto monárquico, praticamente imperial; tal qual um rei em seu trono, com poderes absolutos.
No quarto capítulo, o livro foca no papel da Igreja na cultura medieval. É um tanto complicado apontar o foco da discussão, já que esse é um assunto suficientemente longo; contudo, é algo que jamais pode ser ignorado, já que essa influência marcou para sempre a cultura e a formação da ética ocidental. Por mais que não se perceba, seus elementos estão presentes em nosso cotidiano, mesmo depois de tantos séculos.
Um livro pequeno, poucas páginas, letras grandes, que pode ser lido rapidamente. Porém, possui um conteúdo tão rico que é impossível menosprezá-lo. Ele segue o caminho inverso de livros gigantescos que se perdem em floreios e fogem do foco. Objetivo, é uma leitura obrigatória para qualquer historiador que deseje compreender a inserção da Igreja na sociedade medieval.



FILME WALLACE, Randall FOMOS HERÓIS

A introdução e o final de Fomos Heróis são um resumo do que há, respectivamente, de melhor e de pior no filme. No início, a surpresa: ao introduzir um filme sobre o Vietnã uma das primeiras frases que se ouve é uma dedicatória não apenas aos soldados americanos mortos na guerra, mas também "aos bravos vietnamitas do Norte que nós matamos". Mais surpreendente ainda (uma vez que há uma certa onda revisionista "politicamente correta" incentivando este tipo de "pedido de desculpas") é que as primeiras cenas do filme, sem uma função dramatúrgica direta para tal, mostram o ataque dos vietnamitas a tropas colonizadoras francesas. Parece estranho num filme típico do cinemão americano este tipo de correlação que mesmo Francis Ford Coppola acabou retirando da sua primeira versão de Apocalypse now. É francamente surpreendente, sem dúvida.
E é nesta linha que o melhor de Fomos Heróis vai transitar: tentando fazer um esforço de reflexão do tipo "antes de americanos ou vietnamitas os soldados são sempre jovens que não escolheram estar ali lutando", o filme consegue propor vários momentos de observação humanista interessante, quase pelo viés reflexivo de um Atrás da Linha Vermelha. Também bebendo do tipo de encenação hiperrealista pós-Platoon (mas, especialmente, pós-Resgate do Soldado Ryan, e porque não dizer, pós-Coração Valente, filme do qual o diretor Wallace foi roteirista), o filme consegue encenar algumas cenas de batalha absolutamente impressionantes, onde atinge o espectador em cheio no intuito de fazer do ato de guerrear algo profundamente repugnante e desesperador (lembrando muito o realismo de um Kippur, de Amos Gitai). O espetáculo do cinema está a serviço de mostrar o quanto de medo e perda de consciência há por trás do chamado "heroísmo patriótico".
No entanto, o que falta ao filme (e o final é o maior índice disso) é a coragem (ou, pragmaticamente falando, a impossibilidade prática como produto hollywoodiano) de levar isso tudo que está intuído e sentido aqui e ali até as últimas consequências. Sim, porque apesar de toda esta contextualização, esta tentativa de dar espaço cênico aos "dois lados", esta condenação da guerra, ainda assim existe no filme a presença do "Grande Herói Americano", do homem-comum-que-se-converte-em-herói, do exemplo máximo de ideal de coragem acima do medo. Este mesmo clássico modelo que era tão opressor no cinema dos anos 40 (quando podia ser John Wayne ou Gary Cooper) quanto nos anos 80 (Stallone ou Chuck Norris), tudo isso está aqui no personagem de Mel Gibson, que com sua bondade, coragem e correção inabaláveis, destoa de todo o resto que está encenado. Perfeito como pai de família, como tutor, como amigo, como superior, como soldado, como adversário, como mente estratégica, ele é um verdadeiro modelo de ser humano que torna, pela comparação, os outros que o cercam um bando de fracos e insuficientes.
É verdade que não chega a ser um personagem tão deslocado assim já que a trilha sonora, as câmeras lentas e os closes heroicizantes já indicam todo um outro viés do filme. Ainda assim, no final, após tamanho desfile de sofrimento e desespero era de se esperar menos fé do próprio cineasta na figura do seu herói. Esta, no entanto, se mostra inabalável. É como se o filme nos dissesse: "a guerra é errada, um absurdo dos homens, e é perfeitamente normal sentir medo e desespero nela, que anula a humanidade de cada um, MAS se for para se ver nessa situação, nada melhor que com um autêntico coronel-herói do bravo Exército Americano". É através dele que se busca um final do tipo "a guerra acabou com muita gente, mas pelo menos famílias como a deste homem podem ter orgulho do herói que têm em casa". Da mesma forma que soa absolutamente desnecessária a caracterização tão batida da imprensa como um bando de abutres tentando viver da carniça do sacrifício dos soldados-heróis.
Estas patriotadas e simplificações certamente tiram boa parte da força e até da seriedade da tentativa de denúncia altamente pungente que o filme levanta (e especialmente forte pela forma com que muitas vezes é filmada). Mas, se fica difícil levá-lo de todo a sério, também não é motivo para que não se reconheça seus méritos, e não se aproveite algumas belas idéias, como o retrato das mulheres que ficaram em casa no ritual do recebimento de telegramas notificando as mortes dos seus maridos. Apesar do caimento melodramático mão-pesada em algumas cenas, é este tipo de idéia que permite ao filme de Wallace atingir um mínimo de permanência.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

LIVRO GREENE, Brian.O Universo Elegante


A física moderna apóia-se em dois pilares: a Teoria da relatividade geral, que explica o universo em grande escala (planetas, estrelas, galáxias), e a Mecânica quântica, que descreve-o em escala microscópica (partículas, átomos, moléculas). A primeira deve-se a Albert Einstein que no início do século XX subverteu a visão científica do universo ao estender a teoria gravitacional, originalmente proposta em 1687 por Isaac Newton, com o conceito de relatividade do tempo. A segunda teve origem na teoria eletromagnética, proposta em 1865 por James Clerk Maxwell e, tal qual a teoria de Einstein, representou uma verdadeira revolução conceitual, desta vez ao introduzir a probabilidade como única descrição possível do mundo sub-atômico. As primeiras idéias surgiram em 1900, propostas por Max Planck, e nos anos seguintes foram aperfeiçoadas por físicos como Einstein (sempre ele), Werner Heisenberg, Paul Dirac e Erwin Schrödinger. Ambas as teorias são capazes de prever fenômenos físicos, dentro de seu respectivo campo de atuação, com uma precisão inimaginável, no entanto esta história de sucesso esconde um fato perturbador: a relatividade geral e a mecânica quântica não podem estar certas ao mesmo tempo. Isto significa que a física moderna não é capaz de prever o que acontece em situações onde uma grande quantidade de matéria está confinada em um espaço muito pequeno, como no interior de buracos negros ou logo após o Big bang, a explosão que deu origem ao universo.
A boa notícia que nos traz o livro O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva de Brian Greene (Companhia das Letras, 2001) é que está em gestação a Teoria das supercordas, ou simplesmente Teoria das cordas, uma teoria capaz de unificar a descrição física do universo, realizando o sonho perseguido em vão por Einstein em seus últimos trinta anos de vida: a construção de uma Teoria sobre tudo. A má notícia é que de acordo com a teoria das cordas o tecido microscópico do universo é um labirinto com mais de dez dimensões, a maioria das quais dobrada sobre si mesma dentro de volumes minúsculos, cuja descrição matemática é tão complicada que até hoje só se conhecem equações aproximadas da teoria. Mas estas dificuldades não assustaram Greene quando escolheu esta área da física como campo de atuação, área na qual colaborou com diversas descobertas. Também não o intimidou o enorme desafio de apresentar, de maneira compreensível para leigos, tal complexidade. Ao leitor pede-se que não esmoreça e encare a leitura com a mesma coragem, a recompensa vale a pena: chegar mais perto de compreender como funciona o universo.
Em resumo, a teoria de cordas afirma que todas as maravilhas que ocorrem no universo surgem das vibrações de uma simples entidade: minúsculos laços ou cordas profundamente escondidos no coração da matéria. Os diferentes padrões de vibração destes laços seriam a origem da diversidade do mundo sub-atômico. A ambição final da teoria é explicar os valores das diversas constantes que aparecem nos modelos físicos (a velocidade da luz, a massa e carga das partículas elementares, a relação entre as intensidades das diferentes forças, etc.), que atualmente devem ser determinados experimentalmente, como decorrência da teoria. Além de relatar a história científica por trás da busca desta teoria final, Brian Greene descreve também o lado humano, a emoção de participar da construção do que será a verdade futura a respeito da essência do universo, as disputas e a colaboração, a decepção com o fracasso e a emoção com cada nova descoberta. Como pano de fundo, idéias revolucionárias e excitantes tais como novas dimensões escondidas no tecido do espaço, buracos negros que se transformam em partículas elementares, cortes e furos no contínuo do espaço-tempo, universos gigantes que se trocam com outros minúsculos, e toda uma variedade de outros aspectos que desempenham um papel essencial na compreensão de algumas das questões mais profundas de todos os tempos.
Se a complexidade do assunto parece desanimadora, isso deve-se ao desconhecimento do verdadeiro talento do autor para a metáfora e para as imagens mentais. Sem perder de vista o rigor técnico, Greene esgrima descrições e figuras que, se não são suficientes para tornar evidente o que são espaços de seis dimensões de Calabi-Yau, nos levam muito próximo da idéia geral do que poderá vir a ser a teoria final sobre tudo. Um exemplo: para explicar o que seria uma dimensão recurvada sobre si mesma, Greene nos convida a imaginar uma mangueira, que vista de longe é uma simples linha reta, unidimensional, mas para uma formiga que caminha sobre sobre sua superfície é um espaço bidimensional encurvado. Basta agora encolher a mangueira alguns milhões de vezes e teremos a trama íntima do tecido do espaço tempo.
O livro é dividido em cinco partes e quinze capítulos. A primeira parte corresponde à introdução (capítulo 1, vibrando com as cordas) e a quinta à conclusão (capítulo 15, perspectivas). As três partes centrais tratam, respectivamente, das teorias "clássicas" -- a relatividade geral e a mecânica quântica --, da teoria das supercordas e, finalmente, das implicações desta teoria no que diz respeito à estrutura do espaço-tempo. Apenas a leitura da segunda parte (o dilema do espaço, do tempo e dos quanta, capítulos 2, 3, 4 e 5), um curso resumido mas completo sobre os fundamentos da física moderna, já vale o investimento. O livro inclui ainda notas, glossário de termos científicos, referências e sugestões de leitura, e índice remissivo.
Brian Greene licenciou-se em Harvard e doutorou-se em Oxford. Foi professor na Universidade de Cornell, tendo sido nomeado professor catedrático em 1995, e em 1996 transferiu-se para a Universidade de Columbia onde é atualmente professor de física e de matemática. É considerado um dos grandes cientistas no campo da teoria das cordas, tendo realizado um grande número de descobertas revolucionárias neste domínio.

LIVRO SINGH,Simon. O livro dos códigos

A necessidade de privacidade parece ser inerente à natureza humana, no entanto nos círculos diplomáticos e militares, principalmente em tempo de guerra, ela é fundamental. Foi nestes círculos que desenvolveu-se a arte da escrita secreta e a eles restringiu-se até o início da era das comunicações globais, quando, principalmente, devido aos telefones celulares e a Internet, a ameaça da invasão de privacidade estendeu-se às pessoas comuns. A história da evolução desta arte, desde a antiguidade até a incorporação de técnicas da física de partículas, é contada por Simon Singh em O livro dos códigos, A ciência do sigilo do antigo Egito à criptografia quântica, Editora Record, tradução Jorge Calife, 2001.
Embora repleto de histórias deliciosas, este não é um livro para quem não aprecia, um pouco que seja, a matemática ou ao menos o pensamento formal. No entanto, para quem cultiva este prazer, o livro não decepciona: didático, apresenta com fartura de exemplos, 76 figuras ao todo, os detalhes de cada tipo de código, aprofundando ainda algumas explicações em apêndices. Estes exemplos foram certamente um desafio a mais para o tradutor que, infelizmente, em diversas passagens não esteve à altura: inglês e português misturam-se as vezes em meio aos passos de codificação e decodificação.
Além dos prazeres matemáticos, diversos episódios históricos e histórias folclóricas informam e divertem o leitor. Dentre os primeiros destaca-se a luta da equipe de criptógrafos ingleses que, durante a Segunda Guerra Mundial, decifrou, com o auxílio de máquinas eletrônicas, precursores dos computadores, a máquina de codificação alemã Enigma. A participação do matemático Alan Mathison Turing nesta luta é detalhada em sua biografia Alan Turing: the Enigma, escrita por Andrew Hodges e ainda sem tradução para o português.
Outro episódio histórico interessante foi o uso, também durante a Segunda Guerra Mundial, pelo exército americano, principalmente na guerra do Pacífico, de índios Navajos, cujo idioma, com estrutura e raízes lingüísticas únicas, é um perfeito código secreto, com a vantagem de permitir comunicação quase em tempo real, sem a necessidade de nenhum processo de decodificação escrito, o que é vital no campo de batalha. Um parêntese interessante dentro da história dos códigos, linguagens concebidos para ocultar o conteúdo das mensagens, é dedicado à decifração de escritas antigas, que embora não tivessem como objetivo ocultar seu conteúdo teve seu significado perdido ao longo do tempo. Neste parêntese, personagens como Thomas Young, Jean François Champollion e Alice Kober tem suas vidas e vitórias descritas.
Dentre as histórias folclóricas, o mistério do tesouro de Beale merece menção: um cowboy, Thomas J. Beale, teria acumulado uma fortuna de 20 milhões de dólares, escondido-a e deixado, com Robert Morris, dono do Washington, em Lynchburg, Virgínia, uma caixa com documentos cifrados revelando a localização do tesouro. A chave da cifra teria sido deixada com um amigo, que nunca apareceu. Desde então os documentos permanecem indecifráveis e o tesouro escondido.
Os três últimos capítulos tratam do presente e do futuro e mostram como a comunicação globalizada levou a um impasse na privacidade: se pessoas comuns puderem ter acesso à mais avançada tecnologia de criptografia e ter assim seus e-mails secretos protegidos, então os criminosos e terroristas também terão e poderão planejar suas atividades sem que possam ser descobertos, mesmo com licença judicial para a escuta de suas comunicações. Uma explicação acessível para leigos sobre a criptografia quântica, a escrita secreta do futuro, escerra o livro.
Simon Singh é filho de emigrantes indianos e nasceu em 1964, em Wellington, Inglaterra. Doutorou-se em física pela Universidade de Cambridge e trabalhou dois anos no Centro Europeu para Partículas Físicas (CERN), em Genebra, Suíça, em busca do top quark, um dos tijolos básicos na estrutura da matéria. Em 1991, passou a trabalhar no departamento de ciência da BBC. Participou dos programas World Tomorow e Horizon, onde foi co-produtor de um documentário, ganhador do prêmio BAFTA. Escreveu ainda O Último Teorema de Fermat, já resenhado no Redemoinho, e The Science of Secrecy, também sobre a história da criptografia. Mantém atualmente uma página na Internet onde vende e indica livros e anuncia suas palestras.
O livro tem oito capítulos, as vezes um pouco longos, que correspondem basicamente aos diversos estágios da evolução das técnicas de criptografia. Inclui ainda dez apêndices (de A a J) com explicações mais detalhadas de alguns dos tópicos tratados, um glossário e uma seção de bibliografia recomendada, inclusive com diversos endereços Internet, além de agradecimentos e créditos das muitas fotos que ilustram o livro. Ao ser lançado no Reino Unido em 1999, o livro incluía um desafio com um prêmio de 10.000,00 libras esterlinas, na forma de 10 mensagens cifradas, com complexidade de decifração crescente. Embora não seja mais válido, enquanto desafio oficial, as dez cifras foram incluídas no final do livro como desafio pessoal aos leitores.