sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

LIVRO Fontova, Humberto-O Verdadeiro Che Guevara e o Idiotas Úteis que o Idolatram

FONTOVA, Humberto-O Verdadeiro Che Guevara e o Idiotas Úteis que o Idolatram. Editora É Realizações, São Paulo, 2009.

Transformado ao longo dos anos numa espécie de “Jesus Cristo revolucionário” graças aos esforços incansáveis da esquerda mundial, o argentino Ernesto Guevara é objeto de autêntico culto a personalidade em todo o mundo.
Entretanto, a leitura do livro do cubano-americano Humberto Fontova deixa claro que, embora Guevara seja um inegável sucesso de marketing político e comercial – com sua imagem estampando desde camisetas para bebes até biquíni vestido pela supermodelo Gisele Bündchen – na vida real pode ser considerado um fracasso.
Lançando mão de muitas fontes bibliográficas e orais, especialmente de ex-companheiros de Guevara, Fontova relata, de maneira impiedosa e irônica, como o argentino, muito longe do homem perfeito idealizado pela mitologia esquerdista, era uma pessoa ressentida, vingativa, incompetente e responsável direto pelo assassinato de centenas de pessoas absolutamente inocentes de qualquer tipo de crime.
Vindo de uma desestruturada família burguesa argentina simpatizante do comunismo, Guevara seria considerado, sob qualquer aspecto, um vagabundo, um andarilho perdido no mundo. Seu envolvimento com exilados cubanos no México após uma passagem pela Guatemala acabou levando-o para aventuras em Cuba, no seio do movimento armado contra o ditador Fulgêncio Batista.
A luta contra Batista é um capítulo a parte, que revela muito do modus operandi de Guevara e Fidel Castro. Diferente do senso comum, segundo o qual Batista foi derrotado por uma série de intensas batalhas movidas por guerrilheiros audaciosos, o que menos houve na derrocada de Batista foi luta armada. Castro operava, sobretudo, no terreno da propaganda, angariando dinheiro em grande quantidade, especialmente das elites cubanas, cansadas do regime de Batista, e as simpatias internacionais, em particular nos Estados Unidos, através da mídia que se encarregou de forjar a imagem de valorosos revolucionários para Fidel Castro e Che Guevara – que, aliás, nessa época era apenas mais um dentre vários colaboradores da revolução.
O regime de Batista caiu principalmente pela corrupção de suas forças, que aceitavam dinheiro de Fidel Castro para retirar-se sem luta, cansaço das elites cubanas e dos americanos em tolerar os métodos de Batista, e, em especial, a crença em que Castro e seus homens eram realmente democratas e honestos em seus objetivos.
Após a vitória na luta contra Batista, em pouco tempo a verdadeira face do regime revelou-se: violência, assassinatos, tortura e prisões. E Guevara teve papel fundamental nisso.
Neste ponto, Fontova faz uma clara distinção entre Castro e Guevara. Enquanto Fidel Castro era muito mais hábil, utilizando a violência como meio para atingir um fim, Guevara parecia ver na brutalidade e assassinatos um fim em si mesmo. Guevara acreditava que a “violência revolucionária” – leia-se, a morte sem piedade de todos os inimigos, reais ou imaginários – era a melhor forma de controlar o poder. Assim, desde o começo, Guevara ligou-se ao aparato repressivo do bloco soviético, transportando seus métodos para o cenário cubano.
Talvez o mais chocante para os fás de Guevara que por ventura lerem o relato de Fontova, seja a imensa distância sobre o significado que lhe é atribuído – um ícone da liberdade e igualdade – e sua real figura. Assim, um homem que é cultuado por líderes de minorias raciais, hippies, alternativos e jovens, tinha, na verdade, uma mentalidade racista, patriarcal, despótica e arrogante, desprezando negros, jovens, “cabeludos”, música – enfim, tudo aquilo que, dizem as esquerdas e desinformados em geral, Guevara simbolizaria.
Humberto Fontova mostra como essas e muitas outras incoerências foram e ainda são resultado do verdadeiro caso de amor que existe entre os meios intelectual e midiáticos, especialmente o norte-americano, e a ditadura de Fidel Castro, citando por exemplo o jornal New York Times, que repetiu com Castro exatamente o que já tinha feito, na década de 1930, encobrindo os crimes do regime de Stalin. [*]
A imensa incompetência de Guevara a frente do ministério da economia destruiu a infraestrutura cubana, desorganizando até hoje um dos países mais prósperos das Américas, levando o caos e a miséria a uma população cristã e orgulhosa, favorecendo sua submissão ao projeto de poder totalitário ambicionado por Fidel Castro. A este respeito, o autor mostra com números e informações detalhadas como Cuba era econômica e socialmente antes da chegada ao poder de Castro e Guevara e como ficou depois.
O livro revela episódios pouco conhecidos, como o envolvimento de Guevara em uma série de atentados terroristas frustrados nos EUA, logo após a chegada ao poder em Cuba, época em que os americanos ainda tinham ilusões quanto aos objetivos de Fidel Castro; o real significado da Crise dos Mísseis – que funcionou como um “sinal verde” para Castro impor seu regime totalitário a Cuba, já que teve a garantia dos EUA de que sua ditadura não seria incomodada –; a chamada “invasão da Baía dos Porcos” e a dura repressão contra a revolta popular mantida durante metade da década de 1960 pela população rural cubana contra o regime de Fidel Castro, como reação à coletivização forçada.
As aventuras externas de Guevara, primeiro no Congo e depois na Bolívia, em missões militares permeadas de muita retórica revolucionária vazia e nenhuma competência até mesmo para assuntos práticos elementares (como, por exemplo, ler uma bússola para não se perder na selva), resultaram primeiro no descrédito de Guevara como um líder revolucionário viável, após o fracasso no Congo, e, depois, em sua morte na Bolívia, encerrando assim sua vida e carreira de revolucionário que se pretendia genial. Curioso notar que tanto no Congo quanto na Bolívia Guevara foi confrontado por forças das quais faziam parte cubanos que haviam deixado seu país após o início dos desmandos do "Che" e Castro, e que demonstraram muito mais competência militar do que Guevara, cuja tão falada habilidade tática e estratégica encontra-se guardada junto com seus demais méritos, ou seja, na propaganda.
O livro de Humberto Fontova é valioso não apenas pelas suas informações, que inclusive podem ser um ótimo antidoto para os inocentes úteis simpatizantes de Guevara, mas por ser o único trabalho publicado no Brasil, em muito tempo, a ir contra o senso comum que transformou um homem medíocre em um deus no templo da ideologia comunista.
Destaque também para o documentário que acompanha o livro, “Guevara, Anatomia de um mito”, com imagens e depoimentos sobre Ernesto Guevara desde seus tempos de desocupado na Guatemala até sua morte na Bolívia, complementando de forma muito eficiente e sóbria o trabalho de Fontova.

[*] Nota: Um dos maiores biógrafos “chapa-branca” de Guevara citado várias vezes ao longo do livro de Fontova, o mexicano Jorge Castãneda, antigo esquerdista radical há alguns anos convertido ao socialismo light de cunho social-democrata atualmente predominante na política latino-americana e nos EUA, esteve há poucos dias envolvido num episódio no minimo curioso. Convidado para um evento na Venezuela, promovido pela oposição ao ditador Hugo Chávez, Castãneda criticou o fato de que “Chavez estava tentando criar outra Cuba” na América Latina. Para quem dedicou grande parte de sua vida a incensar o tirano Castro e vassalos do ditador como Guevara, essa é uma virada e tanto.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

LIVRO A Noite das Grandes Fogueiras-MEIRELLES, Domingos

MEIRELLES, Domingos, A noite das Grandes Fogueiras. São Paulo: Record, 2001.

As Noites Das Grandes Fogueiras retrata uma parte importante da história do Brasil, e se passa nos conturbados anos 20, auge da política do café-com-leite e do surgimento do tenentismo. O objetivo dessa obra-prima escrita por Domingos Meireles (repórter da Rede Globo) foi divulgar fielmente o aspecto histórico daquela época na intenção de passar ao leitor a magnífica empreitada de homens valentes que lutaram para melhorar o país.
Essa história verídica começou com um grupo de oficiais da Força Pública de São Paulo que pretendia depor o presidente Arthur Bernardes numa tentativa de acabar com a corrupção, o nepotismo e o arbítrio daquele governo em 1924.
O motim dos soldados paulistas teve êxito e chegaram a dominar São Paulo, porém as tropas federais no intuito de por fim a rebelião bombardearam intensamente a capital paulista destruindo-a em boa parte. Rechaçados, com a cidade sitiada e o povo passando necessidades devido aos embargos, os revolucionários sairam da capital e foram em direção ao interior. Em outros quartéis espalhados pelo país corria a informação do planejamento do motim. No Rio Grande do Sul, também começava outra tentativa de revolução e o pessoal de São Paulo se juntou aos gaúchos.
Numa intensa luta contra as tropas fiéis ao governo os amotinados sempre em situação desfavorável eram obrigados a recuar e fazer uma nova formação. Numa dessas formações um grupo então liderado pelo capitão Luís Carlos Prestes, obteve êxitos, surgia a INVENCÍVEL COLUNA PRESTES. Na tentativa de continuar com a revolução a Coluna Prestes passou a percorrer vários estados brasileiros no intuito de arregimentar mais voluntários dispostos a combater o governo. Vários civis e militares aderiram ao movimento, pegaram as armas e foram a luta. Por onde passavam eram reconhecidos como heróis pela população local que sabia que eles lutavam contra as forças federais. Somente no Nordeste é que foram recebidos por tocaias e traições.
A obra conta em detalhes a história veridíca da Coluna Prestes que percorreu 36000 quilometros a pé, por 12 estados perseguidos dia e noite pelas tropas do governo, traidores e até mercenários e cabras mandados do coronel Padre Cícero no Ceará. Até o bando de Lampião foi procurado para combater Luis Carlos Prestes e seus soldados. A Coluna Prestes nunca perdeu uma só batalha no seus 3 anos de perseguição. Além da precisão das informações, Domingos Meirelles imprimiu a obra um fascínio ao dotar seus personagens de emoção, desde o cerébro e condutor da coluna, Luis Carlos Prestes, e seus companheiros como Siqueira Campos, João Alberto e Juarez Távora. Juntos com eles aparecem outros personagens de imensa grandeza como o tentente João Cabanas, o qual se tornou uma lenda da Coluna.
Essa determinação em vencer tem como exemplo Miguel Costa, que em um tiroteio levou um tiro de rifle no peito e continuou a lutar mesmo sangrando e vendo seu coração pulsar dentro do peito aberto !! O livro As noites das Grandes Fogueiras é leitura obrigatória a quem deseja conhecer um pouco mais da história do Brasil e deveria ser obrigatório para os vestibulandos, pois um período tão importante deveria ser melhor lembrado no currículo escolar. O livro contém cerca de 700 páginas escritas com muita precisão e lisura pelo seu autor, além de muita fotos da época. É uma obra primordial que vai conquistar o leitor a ler seus capítulos: A força pública entra na revolução, Uma chuva de ferro e fogo, O Intrépido João Cabanas, Prestes levanta o Rio Grande, Os porões do General Escuridão, A cilada de Padre Aristides, Os mortos-vivos de Clevelândia, Cruzada contra Satanás, Uma eleição sem surpresas, O Cemitério de La Guaiba e muitos outros.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

LIVRO DEUS,UM DELIRIO. Dawkins, Richard

DAWKINS,Richard. Deus, um delírio (trad) Fernanda Ravagnani. São Paulo : Companhia das Letras, 2007.

Tive, ultimamente, oportunidade de ler o livro “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins.
Concluí, ao término da leitura, que era um livro desigual, mas que merecia ser lido. Trata-se de uma obra ambiciosa, pois pretende demonstrar, para um público culto, porém leigo, não apenas que a probabilidade de que Deus não exista é infinitamente maior do que a probabilidade de que exista, mas que o ateísmo é uma posição eticamente superior ao teísmo.
Segue-se que uma sociedade democrática composta de indivíduos que, em sua maioria, conseguissem dispensar a religião -ou, pelo menos, torná-la assunto puramente privado- teria grande probabilidade de ser melhor e mais feliz do que as sociedades em que isso não havia ocorrido.
Tal convicção explica por que "Deus um Delírio" não tem apenas um objetivo teórico, mas também -e sobretudo- prático. Não se trata, para o seu autor, meramente de interpretar, mas também de transformar o mundo. Daí o seu caráter militante.
Muito esquematicamente, pode-se dizer que o esforço de Dawkins se encaminha por três vertentes diferentes, porém interligadas: a do esclarecimento de determinados conceitos, a da crítica ao teísmo e a da defesa do ateísmo.
No que diz respeito ao primeiro ponto -ao qual, dadas as limitações espaciais, terei que me limitar, ao menos no presente texto-, Dawkins faz algumas distinções como, por exemplo, entre deísmo, panteísmo e teísmo, entre as diferentes modalidades de agnosticismo etc. O sentido dessas distinções elementares não é meramente didático, mas polêmico.
Explico. Creio não ter sido o único adolescente que, ao manifestar certas dúvidas, ouvia dos adultos reprimendas como: "Quem é você para duvidar da existência de Deus, quando os maiores gênios da humanidade, como Einstein, acreditam nela?".
Pois bem, as distinções feitas por Dawkins se dirigem contra esse tipo de argumento. É que grande parte dos pensadores citados como crentes em Deus são, na verdade, deístas ou panteístas; e nem estes nem aqueles acreditam num Deus pessoal, tal qual o das religiões abraâmicas, que são o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Para a maior parte dos deístas, "Deus" é o nome do princípio e causa do universo, no qual, porém, uma vez criado, jamais interfere. Sendo assim, o Deus dos deístas não produz milagres nem se interessa pelos homens.
Pode haver algo mais distante do Deus do Velho ou do Novo Testamento? Sim: o Deus dos panteístas, que se identifica com o próprio universo, a natureza ou as leis da natureza. Tal é o Deus de Einstein, que, neste ponto, se identifica, segundo ele mesmo, com Spinoza.
A rigor, pode-se, portanto, dizer que o descobridor da teoria da relatividade se encontra muito mais próximo do ateísmo do que do Deus de Abraão. "Não creio num Deus pessoal", afirmou ele certa vez, "e jamais neguei isso: sempre o exprimi com clareza".
Como, então, forjou-se o mito da religiosidade de Einstein? Entre as razões para se pensar que ele acreditava em Deus está, sem dúvida, o seu uso metafórico -por puro charme- dessa palavra. Algumas das suas mais famosas declarações são "Deus não joga dados", que, como diz Dawkins, pode ser interpretada como "o acaso não se encontra no cerne das coisas", ou a pergunta retórica "Deus tinha escolha, ao criar o universo?", que se pode entender como "o universo poderia ter começado de outro modo?"
Porém, mais importante é que, como Dawkins observa, com razão, é comum entre os cientistas e racionalistas uma reação quase mística -mas que nada tem de sobrenatural- à natureza e ao universo. "Se há algo em mim que pode ser considerado religioso", disse Einstein, "é a admiração incontida pela estrutura do mundo, na medida em que a ciência é capaz de revelá-la".
O fato de que há, no fundo, uma incompatibilidade entre essa atitude e a religião é expresso pela perplexidade que o astrônomo Carl Sagan, citado por Dawkins, exprime ao se perguntar: "Como é possível que nenhuma grande religião tenha olhado para a ciência e concluído: Isto é melhor do que pensávamos! O universo é muito maior do que nossos profetas haviam dito, mais grandioso, mais sutil, mais elegante'?”.
Confesso sentir um espanto semelhante ao de Sagan. Ademais, parece-me que, para cada ser humano, o mais grandioso é ter a consciência de tal grandiosidade, de tal maravilha e de tal mistério.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A velha guerra

Goethe teve um romance passageiro com a Revolução Francesa, que liberou mais demônios do que ele estava disposto a aceitar. Vem daí sua famosa declaração de que preferia a injustiça à desordem.
Goya foi um entusiasta de primeira hora de Napoleão mas horrorizou-se com as atrocidades da guerra na Espanha, que retratou com ácido e asco na sua série de gravuras "Desastres de la Guerra". Acabou desencantado também.
Mas o desencanto de Goethe e Goya não é o mesmo dos que lamentaram o fim da velha ordem, para os quais a Revolução Francesa significou não a derrota do despotismo e da injustiça mas um crime contra a natureza do homem. Confundir ordem e normalidade com seus próprios privilégios é um velho hábito de castas dominantes.
Na literatura da contrarrevolução, tão vasta e influente quanto a literatura da revolução, o que aconteceu na França dos Bourbons foi uma segunda Queda do Homem, uma segunda perda do Paraíso. Só quem tinha vivido antes da revolução — outra frase famosa — conhecia as delícias da vida. Delícias que incluíam não apenas os privilégios do absolutismo mas do mundo como ele devia ser, com todas as suas injustiças naturais.
A Revolução Russa também provocou dois tipos de reação, a do desencanto com seus excessos e descaminhos depois da empolgação inicial, como o de Goethe e Goya com a Revolução Francesa, e a dos que a condenaram desde o princípio como antinatural. E também provocou dois tipos de literatura.
Se todos os que acham que liberdade, fraternidade e igualdade é um slogan ainda aproveitável são filhos da antiga retórica da revolução, os reacionários de hoje são filhos da antiga retórica da restauração, mesmo que o vocabulário tenha mudado. Para estes o fracasso do comunismo soviético na prática representou o fim do ideal iluminista e a recuperação do homem natural.
A celebração do "bom-senso" neoliberal contra a "falácia da compaixão", como a descreveu alguém, significa mais um triunfo reacionário na velha guerra. E estamos de volta ao delicioso paraíso do egoísmo sem culpa e das injustiças naturais sem remédio.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

LIVRO THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade

THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987.

Nesta resenha, estou abordando um tema que me é de grande importância e que aos poucos tenho introduzido, qual seja, o movimento sindical. Neste livro, pude aprofundar e confirmar como é importante compreender a participação de grupos específicos de nossas sociedades como a classe operária Inglesa. Tirar do silêncio vozes obscurecidas, essas, portanto tão pouco valorizadas pelos meios de comunicação, mas tão profundamente elucidadas em vozes como a do historiador Edward Thompson, são alguns dos nortes deste presente estudo.
Edward Palmer Thompson (1924-1993), natural de Oxford, Inglaterra, foi um ativo Historiador com envolvimento prático e teórico de cinco décadas no cenário britânico e mundial. Autor de vários livros e com destaque para sua obra máxima “A Formação da Classe Operária Inglesa”. Thompson, contemporâneo de outros historiadores do chamado “Marxismo Inglês” como Eric Hobsbawn, Rodney Hilton e Christopher Hill tiveram papel marcante no Partido Comunista Inglês. Thompson teve também atuação no Movimento Popular da Inglaterra na época da Segunda Grande Guerra (1939-1945), tendo também participado diretamente nessa guerra. Abandonou o Partido Comunista em 1956, participou da construção de ferrovias na Iugoslávia, ministrou aulas para operários e na década de 1980 atuou como pacifista antinuclear e em seus derradeiros anos de vida, atuou em universidades nos Estados Unidos e Inglaterra.
A experiência acumulada de sua participação agitada nestes eventos pode ser sentida em suas obras, como a sua costumeira preocupação nas causas populares, assim como em sua própria conduta pessoal.
O livro de Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade é o primeiro tomo da série que apresenta mais dois volumes; A Maldição de Adão e A Força dos Trabalhadores. No Brasil a primeira edição do primeiro tomo é de 1987 e foi lançada pela aclamada editora Paz e Terra, respeitada pelo seu leque de livros acadêmicos.
Traduzido a partir do original The Making of the English Working Class de 1963, Thompson destacou como um livro que não tinha como alvo principal o universo acadêmico, e sim para pessoas comuns, como os operários que ele lecionava nos anos de 1960.
Destarte, neste primeiro tomo (Árvore da Liberdade), que é dividido em cinco partes, o autor no prefácio faz um esclarecimento acerca da categoria de classe operária, especialmente a Inglesa com as suas características que a diferenciam de outras como a Escocesa. Enfatiza que a classe operária Inglesa não é “coisa” e sim “relação” e com herança de sua própria história, também é destacado uma utilidade acerca de sua obra; qual seja resgatar os excluídos (até então) da História, como o tecelão de malhas ou o artesão utópico.
No primeiro capítulo desta obra (Número Ilimitado de Trabalhadores), o Historiador Inglês aprofunda sobre as origens do movimento operário Inglês, como a SLC que segundo seus estudos é a primeira organização política operária da Inglaterra. Anteriormente, existiam algumas formas de organização desde a Guerra Americana, mas seu papel mais destacado vem da influência dos Jacobinos da Revolução Francesa. A alta dos preços dos produtos, os castigos dado aos traidores (p. 17) e a falta de status dos soldados são outros pontos levantados por Thompson que acastelam a formação dos operários Ingleses.
No segundo capítulo (O Cristão e o Demônio) é debatida a influência de algumas religiões protestantes. São religiões que encontram espaço entre homens humildes e que reúne segundo relatos até oitenta mil participantes. É destacado o Puritanismo influenciado pelos “ideais Iluministas”, que segundo Thompson, tem a capacidade de “positivar” os operários na luta maquineista comum entre o demônio com o mundo real. O Metodismo tem também um importante grau de penetração na massa operária, sendo influenciada e influenciadora da “democracia, disciplina, doutrina e emotividade” (p. 38).
No tocante ao terceiro capítulo (As Fortalezas de Satanás), destaca-se o papel dos motins e das turbas, e desta última o estudo é mais aprofundado. A turba, que entre outros conceitualizações, tem a sua função frente ao movimento operário mais vinculado ao pagamento de seus soldos que mesmo aos sentimentos de reivindicação. Com a entrada efetiva da Revolução Industrial na sociedade Inglesa, sua população é cada vez mais explorada e “ofendida”, e uma dessas ofensas pode ser compreendida na ideologia da “maior ofensa da propriedade privada é não ter propriedade”. Nas décadas de 1760 e 1770 na Inglaterra Industrial, o povo Londrino organiza-se melhor, como nos relatos de turbas que controlavam os preços dos produtos de modo mais “pacífico”.
No quarto capítulo (O Inglês Livre de Nascimento), Thompson enfatiza sobre as origens dos Ingleses, e um profundo questionamento acerca das diferenças de vida dos Monarcas e Aristocratas perante o sofrido povo Inglês, sendo este último considerado o produtor de 99% da riqueza, e o primeiro o “grupo parasitário”. O texto Direitos do Homem tem destaque por Thompson, nele fica evidenciado os efeitos da Revolução Francesa. Pouco percebido a função dos Monarcas pelo povo antes circulação do texto Direitos do Homem, estas diferenças ficam, portanto, mais nítidas devido ao caráter humanista deste famoso texto. A própria ideia de motim, originária do tempo da Revolução Gloriosa (1688), faz referência à origem Inglesa, assim como a criação de uniões de organizações de natureza sindical (Trade Unions) ser uma tendência presente desde 1720 na Inglaterra..
O autor finaliza esse primeiro tomo da série com o capítulo (Plantando a Árvore da Liberdade). A ênfase desse capítulo está na relação da Revolução Francesa na Inglaterra Industrial, esta inclinação é sentida nos Jacobinos Ingleses, que se não são originários dos Jacobinos Franceses, tem sua ideologia em seus meios sociais.
As sociedades operárias Inglesas apresentam intensa agitação até 1794, com manifestações girando em torno de duzentas mil pessoas. Desta imensa multidão (p. 144) temos propostas ousadas, como educação política aos trabalhadores e o crescimento da participação da população assalariada nos movimentos. Ademais, de 1794 em diante o movimento operariado é fortemente reprimido pela elite Inglesa, perdendo seu centro nacional (p. 154) tradicionalmente instalado em cidades industriais como Londres, Sheffield e Norwich.
Em 1796, com aproximadamente quatro anos de experiência no movimento operário, a classe amadurece, inclusive “suspeitando da ameaça” dos revolucionários Franceses (conhecidos como o perigo que vem do sul).
Em 1811, é iniciado um novo sindicalismo, que diferente dos outros sindicalismos Europeus, teve a experiência da “contra revolução Inglesa”, que nasce no berço do crescimento da própria Revolução Industrial, e que segundo se afirmava na época, era próprio de um país em que até as “velhinhas deveriam falar de política”.
A obra de Edward Thompson representa um marco e uma importante reflexão acerca da agitada sociedade Inglesa Industrial do final do século 18.
Um de seus esforços está em conceitualizar às particularidades do movimento operário Inglês, principalmente ao período que vai de 1790 até 1800, concentrada nos velhos centros industriais Ingleses. Muito influenciado pela Revolução Francesa, mas sem perder parte de suas origens Inglesas, como nas indicações da Revolução Gloriosa e nas próprias características Inglesas, o operariado retratado por Thompson busca a compreensão da sociedade vista pelas situações –conflituosas ou não – dos movimentos sindicalistas, e também na particularidade dos grupos em si, como os próprios movimentos, organizados em motins, turbas, associações etc. Não ficando a parte, as próprias fronteiras espaços-temporais que estas sociedades estão submetidas. A política, organização, dificuldades, glórias ou crimes desvelados por Thompson em sua obra máxima representam uma ruptura que segundo o próprio não era até então compreendida, ou baseada em uma historiografia menos ousada. Como diria Thompson, “Afinal de contas, nós mesmos não estamos no final da evolução social”.

LIVRO THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade

LIVRO THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade


THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987.

Nesta resenha, estou abordando um tema que me é de grande importância e que aos poucos tenho introduzido, qual seja, o movimento sindical. Neste livro, pude aprofundar e confirmar como é importante compreender a participação de grupos específicos de nossas sociedades como a classe operária Inglesa. Tirar do silêncio vozes obscurecidas, essas, portanto tão pouco valorizadas pelos meios de comunicação, mas tão profundamente elucidadas em vozes como a do historiador Edward Thompson, são alguns dos nortes deste presente estudo.
Edward Palmer Thompson (1924-1993), natural de Oxford, Inglaterra, foi um ativo Historiador com envolvimento prático e teórico de cinco décadas no cenário britânico e mundial. Autor de vários livros e com destaque para sua obra máxima “A Formação da Classe Operária Inglesa”. Thompson, contemporâneo de outros historiadores do chamado “Marxismo Inglês” como Eric Hobsbawn, Rodney Hilton e Christopher Hill tiveram papel marcante no Partido Comunista Inglês. Thompson teve também atuação no Movimento Popular da Inglaterra na época da Segunda Grande Guerra (1939-1945), tendo também participado diretamente nessa guerra. Abandonou o Partido Comunista em 1956, participou da construção de ferrovias na Iugoslávia, ministrou aulas para operários e na década de 1980 atuou como pacifista antinuclear e em seus derradeiros anos de vida, atuou em universidades nos Estados Unidos e Inglaterra.
A experiência acumulada de sua participação agitada nestes eventos pode ser sentida em suas obras, como a sua costumeira preocupação nas causas populares, assim como em sua própria conduta pessoal.
O livro de Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade é o primeiro tomo da série que apresenta mais dois volumes; A Maldição de Adão e A Força dos Trabalhadores. No Brasil a primeira edição do primeiro tomo é de 1987 e foi lançada pela aclamada editora Paz e Terra, respeitada pelo seu leque de livros acadêmicos.
Traduzido a partir do original The Making of the English Working Class de 1963, Thompson destacou como um livro que não tinha como alvo principal o universo acadêmico, e sim para pessoas comuns, como os operários que ele lecionava nos anos de 1960.
Destarte, neste primeiro tomo (Árvore da Liberdade), que é dividido em cinco partes, o autor no prefácio faz um esclarecimento acerca da categoria de classe operária, especialmente a Inglesa com as suas características que a diferenciam de outras como a Escocesa. Enfatiza que a classe operária Inglesa não é “coisa” e sim “relação” e com herança de sua própria história, também é destacado uma utilidade acerca de sua obra; qual seja resgatar os excluídos (até então) da História, como o tecelão de malhas ou o artesão utópico.
No primeiro capítulo desta obra (Número Ilimitado de Trabalhadores), o Historiador Inglês aprofunda sobre as origens do movimento operário Inglês, como a SLC que segundo seus estudos é a primeira organização política operária da Inglaterra. Anteriormente, existiam algumas formas de organização desde a Guerra Americana, mas seu papel mais destacado vem da influência dos Jacobinos da Revolução Francesa. A alta dos preços dos produtos, os castigos dado aos traidores (p. 17) e a falta de status dos soldados são outros pontos levantados por Thompson que acastelam a formação dos operários Ingleses.
No segundo capítulo (O Cristão e o Demônio) é debatida a influência de algumas religiões protestantes. São religiões que encontram espaço entre homens humildes e que reúne segundo relatos até oitenta mil participantes. É destacado o Puritanismo influenciado pelos “ideais Iluministas”, que segundo Thompson, tem a capacidade de “positivar” os operários na luta maquineista comum entre o demônio com o mundo real. O Metodismo tem também um importante grau de penetração na massa operária, sendo influenciada e influenciadora da “democracia, disciplina, doutrina e emotividade” (p. 38).
No tocante ao terceiro capítulo (As Fortalezas de Satanás), destaca-se o papel dos motins e das turbas, e desta última o estudo é mais aprofundado. A turba, que entre outros conceitualizações, tem a sua função frente ao movimento operário mais vinculado ao pagamento de seus soldos que mesmo aos sentimentos de reivindicação. Com a entrada efetiva da Revolução Industrial na sociedade Inglesa, sua população é cada vez mais explorada e “ofendida”, e uma dessas ofensas pode ser compreendida na ideologia da “maior ofensa da propriedade privada é não ter propriedade”. Nas décadas de 1760 e 1770 na Inglaterra Industrial, o povo Londrino organiza-se melhor, como nos relatos de turbas que controlavam os preços dos produtos de modo mais “pacífico”.
No quarto capítulo (O Inglês Livre de Nascimento), Thompson enfatiza sobre as origens dos Ingleses, e um profundo questionamento acerca das diferenças de vida dos Monarcas e Aristocratas perante o sofrido povo Inglês, sendo este último considerado o produtor de 99% da riqueza, e o primeiro o “grupo parasitário”. O texto Direitos do Homem tem destaque por Thompson, nele fica evidenciado os efeitos da Revolução Francesa. Pouco percebido a função dos Monarcas pelo povo antes circulação do texto Direitos do Homem, estas diferenças ficam, portanto, mais nítidas devido ao caráter humanista deste famoso texto. A própria ideia de motim, originária do tempo da Revolução Gloriosa (1688), faz referência à origem Inglesa, assim como a criação de uniões de organizações de natureza sindical (Trade Unions) ser uma tendência presente desde 1720 na Inglaterra..
O autor finaliza esse primeiro tomo da série com o capítulo (Plantando a Árvore da Liberdade). A ênfase desse capítulo está na relação da Revolução Francesa na Inglaterra Industrial, esta inclinação é sentida nos Jacobinos Ingleses, que se não são originários dos Jacobinos Franceses, tem sua ideologia em seus meios sociais.
As sociedades operárias Inglesas apresentam intensa agitação até 1794, com manifestações girando em torno de duzentas mil pessoas. Desta imensa multidão (p. 144) temos propostas ousadas, como educação política aos trabalhadores e o crescimento da participação da população assalariada nos movimentos. Ademais, de 1794 em diante o movimento operariado é fortemente reprimido pela elite Inglesa, perdendo seu centro nacional (p. 154) tradicionalmente instalado em cidades industriais como Londres, Sheffield e Norwich.
Em 1796, com aproximadamente quatro anos de experiência no movimento operário, a classe amadurece, inclusive “suspeitando da ameaça” dos revolucionários Franceses (conhecidos como o perigo que vem do sul).
Em 1811, é iniciado um novo sindicalismo, que diferente dos outros sindicalismos Europeus, teve a experiência da “contra revolução Inglesa”, que nasce no berço do crescimento da própria Revolução Industrial, e que segundo se afirmava na época, era próprio de um país em que até as “velhinhas deveriam falar de política”.
A obra de Edward Thompson representa um marco e uma importante reflexão acerca da agitada sociedade Inglesa Industrial do final do século 18.
Um de seus esforços está em conceitualizar às particularidades do movimento operário Inglês, principalmente ao período que vai de 1790 até 1800, concentrada nos velhos centros industriais Ingleses. Muito influenciado pela Revolução Francesa, mas sem perder parte de suas origens Inglesas, como nas indicações da Revolução Gloriosa e nas próprias características Inglesas, o operariado retratado por Thompson busca a compreensão da sociedade vista pelas situações –conflituosas ou não – dos movimentos sindicalistas, e também na particularidade dos grupos em si, como os próprios movimentos, organizados em motins, turbas, associações etc. Não ficando a parte, as próprias fronteiras espaços-temporais que estas sociedades estão submetidas. A política, organização, dificuldades, glórias ou crimes desvelados por Thompson em sua obra máxima representam uma ruptura que segundo o próprio não era até então compreendida, ou baseada em uma historiografia menos ousada. Como diria Thompson, “Afinal de contas, nós mesmos não estamos no final da evolução social”.
LIVRO THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade


THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987.

Nesta resenha, estou abordando um tema que me é de grande importância e que aos poucos tenho introduzido, qual seja, o movimento sindical. Neste livro, pude aprofundar e confirmar como é importante compreender a participação de grupos específicos de nossas sociedades como a classe operária Inglesa. Tirar do silêncio vozes obscurecidas, essas, portanto tão pouco valorizadas pelos meios de comunicação, mas tão profundamente elucidadas em vozes como a do historiador Edward Thompson, são alguns dos nortes deste presente estudo.
Edward Palmer Thompson (1924-1993), natural de Oxford, Inglaterra, foi um ativo Historiador com envolvimento prático e teórico de cinco décadas no cenário britânico e mundial. Autor de vários livros e com destaque para sua obra máxima “A Formação da Classe Operária Inglesa”. Thompson, contemporâneo de outros historiadores do chamado “Marxismo Inglês” como Eric Hobsbawn, Rodney Hilton e Christopher Hill tiveram papel marcante no Partido Comunista Inglês. Thompson teve também atuação no Movimento Popular da Inglaterra na época da Segunda Grande Guerra (1939-1945), tendo também participado diretamente nessa guerra. Abandonou o Partido Comunista em 1956, participou da construção de ferrovias na Iugoslávia, ministrou aulas para operários e na década de 1980 atuou como pacifista antinuclear e em seus derradeiros anos de vida, atuou em universidades nos Estados Unidos e Inglaterra.
A experiência acumulada de sua participação agitada nestes eventos pode ser sentida em suas obras, como a sua costumeira preocupação nas causas populares, assim como em sua própria conduta pessoal.
O livro de Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade é o primeiro tomo da série que apresenta mais dois volumes; A Maldição de Adão e A Força dos Trabalhadores. No Brasil a primeira edição do primeiro tomo é de 1987 e foi lançada pela aclamada editora Paz e Terra, respeitada pelo seu leque de livros acadêmicos.
Traduzido a partir do original The Making of the English Working Class de 1963, Thompson destacou como um livro que não tinha como alvo principal o universo acadêmico, e sim para pessoas comuns, como os operários que ele lecionava nos anos de 1960.
Destarte, neste primeiro tomo (Árvore da Liberdade), que é dividido em cinco partes, o autor no prefácio faz um esclarecimento acerca da categoria de classe operária, especialmente a Inglesa com as suas características que a diferenciam de outras como a Escocesa. Enfatiza que a classe operária Inglesa não é “coisa” e sim “relação” e com herança de sua própria história, também é destacado uma utilidade acerca de sua obra; qual seja resgatar os excluídos (até então) da História, como o tecelão de malhas ou o artesão utópico.
No primeiro capítulo desta obra (Número Ilimitado de Trabalhadores), o Historiador Inglês aprofunda sobre as origens do movimento operário Inglês, como a SLC que segundo seus estudos é a primeira organização política operária da Inglaterra. Anteriormente, existiam algumas formas de organização desde a Guerra Americana, mas seu papel mais destacado vem da influência dos Jacobinos da Revolução Francesa. A alta dos preços dos produtos, os castigos dado aos traidores (p. 17) e a falta de status dos soldados são outros pontos levantados por Thompson que acastelam a formação dos operários Ingleses.
No segundo capítulo (O Cristão e o Demônio) é debatida a influência de algumas religiões protestantes. São religiões que encontram espaço entre homens humildes e que reúne segundo relatos até oitenta mil participantes. É destacado o Puritanismo influenciado pelos “ideais Iluministas”, que segundo Thompson, tem a capacidade de “positivar” os operários na luta maquineista comum entre o demônio com o mundo real. O Metodismo tem também um importante grau de penetração na massa operária, sendo influenciada e influenciadora da “democracia, disciplina, doutrina e emotividade” (p. 38).
No tocante ao terceiro capítulo (As Fortalezas de Satanás), destaca-se o papel dos motins e das turbas, e desta última o estudo é mais aprofundado. A turba, que entre outros conceitualizações, tem a sua função frente ao movimento operário mais vinculado ao pagamento de seus soldos que mesmo aos sentimentos de reivindicação. Com a entrada efetiva da Revolução Industrial na sociedade Inglesa, sua população é cada vez mais explorada e “ofendida”, e uma dessas ofensas pode ser compreendida na ideologia da “maior ofensa da propriedade privada é não ter propriedade”. Nas décadas de 1760 e 1770 na Inglaterra Industrial, o povo Londrino organiza-se melhor, como nos relatos de turbas que controlavam os preços dos produtos de modo mais “pacífico”.
No quarto capítulo (O Inglês Livre de Nascimento), Thompson enfatiza sobre as origens dos Ingleses, e um profundo questionamento acerca das diferenças de vida dos Monarcas e Aristocratas perante o sofrido povo Inglês, sendo este último considerado o produtor de 99% da riqueza, e o primeiro o “grupo parasitário”. O texto Direitos do Homem tem destaque por Thompson, nele fica evidenciado os efeitos da Revolução Francesa. Pouco percebido a função dos Monarcas pelo povo antes circulação do texto Direitos do Homem, estas diferenças ficam, portanto, mais nítidas devido ao caráter humanista deste famoso texto. A própria ideia de motim, originária do tempo da Revolução Gloriosa (1688), faz referência à origem Inglesa, assim como a criação de uniões de organizações de natureza sindical (Trade Unions) ser uma tendência presente desde 1720 na Inglaterra..
O autor finaliza esse primeiro tomo da série com o capítulo (Plantando a Árvore da Liberdade). A ênfase desse capítulo está na relação da Revolução Francesa na Inglaterra Industrial, esta inclinação é sentida nos Jacobinos Ingleses, que se não são originários dos Jacobinos Franceses, tem sua ideologia em seus meios sociais.
As sociedades operárias Inglesas apresentam intensa agitação até 1794, com manifestações girando em torno de duzentas mil pessoas. Desta imensa multidão (p. 144) temos propostas ousadas, como educação política aos trabalhadores e o crescimento da participação da população assalariada nos movimentos. Ademais, de 1794 em diante o movimento operariado é fortemente reprimido pela elite Inglesa, perdendo seu centro nacional (p. 154) tradicionalmente instalado em cidades industriais como Londres, Sheffield e Norwich.
Em 1796, com aproximadamente quatro anos de experiência no movimento operário, a classe amadurece, inclusive “suspeitando da ameaça” dos revolucionários Franceses (conhecidos como o perigo que vem do sul).
Em 1811, é iniciado um novo sindicalismo, que diferente dos outros sindicalismos Europeus, teve a experiência da “contra revolução Inglesa”, que nasce no berço do crescimento da própria Revolução Industrial, e que segundo se afirmava na época, era próprio de um país em que até as “velhinhas deveriam falar de política”.
A obra de Edward Thompson representa um marco e uma importante reflexão acerca da agitada sociedade Inglesa Industrial do final do século 18.
Um de seus esforços está em conceitualizar às particularidades do movimento operário Inglês, principalmente ao período que vai de 1790 até 1800, concentrada nos velhos centros industriais Ingleses. Muito influenciado pela Revolução Francesa, mas sem perder parte de suas origens Inglesas, como nas indicações da Revolução Gloriosa e nas próprias características Inglesas, o operariado retratado por Thompson busca a compreensão da sociedade vista pelas situações –conflituosas ou não – dos movimentos sindicalistas, e também na particularidade dos grupos em si, como os próprios movimentos, organizados em motins, turbas, associações etc. Não ficando a parte, as próprias fronteiras espaços-temporais que estas sociedades estão submetidas. A política, organização, dificuldades, glórias ou crimes desvelados por Thompson em sua obra máxima representam uma ruptura que segundo o próprio não era até então compreendida, ou baseada em uma historiografia menos ousada. Como diria Thompson, “Afinal de contas, nós mesmos não estamos no final da evolução social”.